O dias tem sido os mesmos de sempre. Todos muito iguais a si mesmo. Todos parados. Todos quietos. Mas nessa mesma quietude, e por isso mesmo, sinto-me inquieta. Preciso de uma mudança na minha vida. Que se cumpram promessas, que se agitem os mares, que se decidam vidas, enfim...que se decida a minha vida. Claro, eu sei que não é uma decisão permanente, mas, que pelo menos sinta alguma coisa de diferente. Neste caso, existem dois cenários possíveis. Não sei deles qual o mais necessário. Se por um lado a temerosa vontade de fugir, deixar tudo para trás, perder a minha identidade, não ter de me justificar a ninguém, viver vidas diferentes todos os dias, ficar sempre sozinha, desfrutar da minha, e só minha companhia, ter a mesa do café só para mim, ter silêncio, poder ouvir o silêncio sempre que quero...sinto um arrepio percorrer-me o corpo só de pensar como isso seria tão bom, tão agradável, tão....libertador.
Mas, por outro lado, sinto a impiedosa vontade de o ter comigo, de o sentir, de o cheirar, de o tocar, de o abraçar, de o olhar, de o ouvir...ah, como gosto de o ouvir. Gosto de tudo o que ele diz, desde as palavras mais encantadoras até às mais parvas e desconcertantes. Gosto que ele pense no que estou a pensar, gosto que ele diga para eu falar, pois sem a sua ajuda não consigo. Gosto da sua sensatez, do seu equilíbrio. O meu equilíbrio está nele. O meu equilíbrio é ele.
Mas ele está cansado. Eu compreendo-o. Eu sofro. Eu sofro-o.
E tudo o que eu queria era o teu cheiro. Apenas isso. encostar a minha cabeça ao teu peito e sonhar. Só...amar-te.
"Quem nunca sofreu por amor nunca aprenderá a amar. Amar é o terror de perder o outro, é o medo do silêncio e do quarto deserto, de tudo o que se pensa sem ppuder falar, do que se murmura a sós sem ter a quem dizer em voz alta. É preciso sentir esse terror para saber o que é amar. E, quando enfim tudo desaba, quando o outro partiu e deixou para trás de si o silêncio e o quarto deserto por entre os escombros e a humilhação de uma felicidade desfeita , resta o ougulho de saber que se amou"
Miguel Sousa Tavares, Rio das Flores